Love
yourself so no-one has to.
yourself so no-one has to.
Estou tentando me desprender. Com isso, tenho uma notícia boa a lhes oferecer: Comprei meu pedaço de terra em Marte! Lá não tem traição, doenças, drogas, pessoas, inveja… muito menos cobiça. O preço foi barato por conta da baixa temporada. Mas, indico. Tem pouco verde, é uma vermelhidão imensa e um pouco empoeirada. Mesmo assim digo que é um bom lugar. Eu não preciso me preocupar em estar bem arrumado ou pronto para o que der e vier. Não preciso beber para esquecer meus problemas, nem tragar as ideias das pessoas como se eu quisesse fazer parte de algo. Lá é só eu e a visão desse mundo exacerbado. E quando penso nisso, vejo nas promessas de um tempo livre, um novo começo, sem precisar passar pelo limbo. Eu não preciso ficar procurando lugares para me isolar, lá eu tenho todo o canto para cantarolar minhas músicas preferidas sem ninguém para me dizer se estou certo ou errado.
Óbvio que sentirei saudades dos meus amores, das minhas literaturas, mas essa vontade de sumir é inegável. Não se preocupe, eu tenho o cheiro das flores e as imagens gravadas dos momentos bons, das coisas que eu sempre gostei… Não ligo por não tocar, as lembranças me bastam. Já vivi muito os meus erros e não preciso me torcer mais para encontrar dor. Eu sou a dor, medida em milímetros. A sujeira entre meus dedos não será um problema, meu jeito torto não trará estranheza pra ninguém, pois lá ninguém existirá.
Assim que puder, mando notícias.
Enquanto isso, saboreiem os seus precipícios, suas festas, suas vergonhas. Vivam por aqui acreditando nas baboseiras de um mundo onde as pessoas se manipulam e querem ser estrelas. Sei que é mais fácil, menos cansativo. Eu não, eu acredito no inalcansável, mas para isso eu tenho que burlar suas ideias, assim como essa sociedade estúpida. Seja qual for o resultado, tenho que ser breve, tenho que dar um golpe rasteiro, tenho que ser um sabotador natural. Existem coisas que só se faz uma única vez. Mas antes de partir pra Marte preciso fazer algumas coisas como: pular de asa-delta, dar um último beijo no menino que eu sempre amei. Emoção e sabor. Combinação perfeita de uma lembrança boa da Terra.
Mesmo que eu quisesse dar continuidade ao dilúvio que é minha vida, não valeria a pena perder essa de John Carter. Adeus! E para vocês: Find a Cause, Fall in Love, Write a Book…

Minha vozinha se foi nesse dia 10 de novembro e já deixa saudades demais. Nessas últimas semanas rendeu muitas lágrimas e hoje, mais do que nos outros dias, não foi fácil. Não foi mesmo, mas ninguém disse que seria. Tentar ser forte nem sempre dá certo, uma hora a gente cai, passa mal, não entende o porquê, questiona Deus…
Ouvi dizer que é só um corpo. Sim, é! Todos somos. Mas é só um corpo que era ótimo de abraçar, era carinhoso de dar um beijo na bochecha, era perfeito de segurar as mãos. E quando ela lembrava - sempre depois que eu acabava de almoçar - que o ‘Missia’ gostava de almoçar tomando café? Também sempre achava que eu ia cedo e dizia com a voz doce: “Já vai?” Vou sim, vozinha. E tu que foi e não volta mais?
Bem complicado esse negócio de corpo, alma, espírito, sopro de vida etc. Um não é nada sem o outro. Não é nada fácil lidar com a morte. E dizer que tudo acaba em uma caixa. Não dá para acreditar, parece que é mentira ou pesadelo e que uma hora a gente acorda. Não cai a ficha ou não queremos que caia.
Enfim, acaba em uma caixa, mas continua no coração. Só que sem o abraço, o toque, o segurar as mãos e com a saudade machucando um monte.
Eu ainda tenho aquelas listas, aqueles pensamentos, aquele beijo, aquele olhar, ainda tenho até aquela cueca que ele nem sabe. Acima disso, tenho aquela vez que ele enconstou a cabeça em meu ombro e, naquele momento, não importava mais nada. Ainda tenho tudo isso, depois de todos esses anos e depois de todos os outros que passarão. Tenho tudo isso e tudo isso sempre será meu, não importa o que aconteça. Ainda tenho todas aquelas dores e todos aqueles sorrisos. Por mais que tenha doído e que ainda doa, eu faria tudo de novo. “Nada pode seduzir-nos, nada pode atrair-nos, nada leva a despertar o nosso ouvido, a fixar o nosso olhar, nada por nós é escolhido…”

Ela fez tudo o que fez. Fez! Fez sim, por alguma razão. Talvez uma razão só dela, mas foi por uma razão. Uma ou outra vez pode ter se perdido no caminho. Mas no fim das contas, tudo que ela fez foi por amor e portanto, ela não merece ser punida. Não agora. Há tres dias atrás, todos nós morremos. Todos nós. Então deveríamos poder começar de novo.